Para uma Coreia que vivia uma grande explosão econômica e a chance de colocar seu nome no cenário mundial sediando as olimpíadas de verão de 1988, o controle de imagem era essencial, mesmo que isso custasse alguns direitos humanos.

O pós-guerra na Coreia não foi bem um exemplo de respeito aos direitos humanos. Durante os anos da ditadura que a coreia viveu até sua primeira eleição democrática em 1987, se tem diversos casos terríveis de abuso de poder, como o massacre de Gwangju em 1980.

Mas o caso que chamou a atenção das que vos fala nas últimas semanas, é uma que durante os anos que eu estudo sobre história da Coreia, eu nunca tinha esbarrado antes: A casa dos irmãos, Hyungje Bokjiwon.

“Brothers Home”, em tradução livre “A casa dos irmãos”, era uma instituição que foi estabelecida durante os anos 70 e 80, em Busan. Seu propósito era tirar as pessoas das ruas, vesti-las, alimentá-las e educá-las para reintegração na sociedade após um ano, mas não foi bem assim que aconteceu.

O “público alvo” da ação eram moradores de rua, mas esses compunham apenas uma pequena porcentagem da instituição. A grande maioria daqueles que eram levados para a Casa eram vendedores de rua, crianças (em especial, órfãos), pessoas portadoras de deficiência e até mesmo aqueles que eram azarados em não conseguirem identificá-los para as autoridades. Essa população se dava pelo incentivo à polícia para achar novos detentos para a instituição, recebendo recompensas por cada nova entrada. 

Houveram diversos desses campos de purificação, mas Hyungje Bokjiwon foi o maior deles, comportando cerca 4 mil pessoas durante seu funcionamento.

A rotina dos detentos era de trabalho forçado. Nas diferentes fábricas e confecções que existiam dentro da área da instituição, as pessoas trabalhavam com desde linha de pesca, calçados e roupas até madeira e manipulação de metais. E todos trabalhavam e eram punidos severamente caso os produtos não estivessem bons o bastante, e isso incluía as crianças.

Essas produções eram usadas para exportação e era uma outra fonte de renda para o dono da casa dos irmãos, o qual já recebia um subsídio grande do governo para “purificar as ruas” 

Em entrevistas que estão disponíveis na internet, as vítimas contam sobre a violência brutal, abuso de poder e tortura dentro do campo.

Em entrevista à BBC, Choi Seung-woo, um dos sobreviventes dos campos de purificação, conta como foi levado das ruas aos 13 anos, voltando da escola. 

“A polícia me parou e começou a investigar minha mochila. Dentro, só tinha metade de um pão que havia sobrado do meu almoço. Ele continuou me perguntando se eu tinha roubado o pão, me torturando até que eu confessasse o crime”

“Eu só queria ir embora então menti “roubei, eu roubei o pão, por favor me deixe ir”. 10 minutos depois, um caminhão frigorífico chega e sou levado contra minha vontade até a Casa”

Ele conta que, durante seus cinco anos dentro da Casa, ele viveu torturas brutais tanto físicas quanto sexuais e psicológicas.

Para manter o controle, a Casa era organizada como o exército, com diversos batalhões que eram comandados por outros detentos que tinham conquistado a confiança dos policiais. Esse comandante poderia punir e “educar” as outras pessoas por meio de violência.  

“O líder do batalhão e alguns outros homens arrancaram todas minhas roupas e jogaram água gelada sob meu corpo. Enquanto eu tentava dormir, com muito frio, o comandante voltou e me estuprou. Isso aconteceu por três noites seguidas até que eu fosse transferido para outro batalhão”

Choi conta como eram as condições de vida dentro da Casa.

“A única coisa que me deram no campo foi um conjunto de moletom azul, sapatos de borracha e um par de roupa íntima de nylon. Eu mal podia tomar banho, tinha pulga por todo meu corpo.” 

Han Jong-sun, uma outra vitima que foi levada à Casa com apenas 8 anos contou à CNN uma das partes mais marcantes dos anos que ficou preso a instituição.

“Nós iamos à igreja no topo da montanha uma vez por semana. Atrás dessa igreja, tinham várias covas rasas sem nome que, claramente, haviam sido feitas muito recentemente”

Mas…ninguém realmente pagou pelos crimes cometidos ali dentro.

O dono da Casa, Park In-geun, foi condenado por 2 anos e meio de prisão, sendo julgado apenas por desvio de dinheiro público. Park morreu em 2016 por causas naturais.

Ao longo dos anos, houveram desculpas por parte do governo, um procurador bem grande no país até tentou abrir novamente o caso em 2018 para corrigir os erros dos julgamentos passados, mas muitos internautas coreanos não acreditam na sinceridade das autoridades nesse caso.

 

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giuds
Estudante de jornalismo se preparando para ser a próxima mc do kiss the radio

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