Dentro da indústria do K-pop, é sabido que os idols passam por um árduo processo de treinamento para atenderem suas determinadas posições em seus grupos. Também sabemos que existe um estigma em torno da profissão ‘idol’ e das habilidades artísticas desses profissionais. Com o crescimento da onda hallyu internacionalmente, o debate vem sendo aberto diversas vezes, como forma de questionar o talento, a humanidade e até mesmo o livre arbítrio dos idols. Frases como ‘Eles são pau mandados da empresa deles’, ‘São máquinas de obedecer’, ‘Não possuem talento, não são autênticos’, são constantemente direcionadas aos grupos idol, vindas geralmente do público externo. 

O pré-conceito que se tem da indústria vista de fora se inicia na aversão ao diferente e muitas vezes no racismo. Na internet, é bem comum usuários e internautas reacionários destilarem ódio a grupos idol e artistas novatos, sem entender nada por trás da premissa ou do conceito. Dentro da Coreia do Sul, esse mesmo grupo formado por internautas de gerações passadas ou até mesmo artistas de outras vertentes também provoca uma onda de desconforto para artistas de dentro da indústria. 

Conforme o K-pop ganha espaço na televisão e em comerciais, é normal que existam pessoas que se posicionam contra a indústria, dentro de seu país de origem. Vale citar que na Coréia, o movimento de artistas underground estigmatizou os artistas idol; Esses são quase considerados ‘não-artistas’ ou ‘vendidos’ por criadores independentes. 

A ex-integrante do IZ*ONE, Chaeyeon, foi subjugada durante sua participação no Street Woman Fighter. A idol ouviu poucas e boas sobre suas habilidades de dança, já que as outras meninas eram profissionais e Chaeyeon apenas era uma dancer em um girlgroup. Esse tipo de exclusão costuma acontecer em idols também em programas como Show me The Money ou High School Rapper.

Para entender um pouco melhor o título deste ensaio, acho importante explicar o significado do termo ‘microagressões’ Basicamente, microagressão corresponde a qualquer pequena fala ou ato de injúria que reforce determinado estereótipo, ou exponha preconceitos. Esse tema, dentro do nicho do K-pop, vale a pena ser discutido, uma vez que artistas sofrem sendo invalidados, invisibilizados e feridos diariamente. Além disso, não é como se grandes artistas não tivessem surgido na indústria. Nomes como Zico, Jonghyun (Shinee), Ren (Nu’est), Mino (Winner), Bobby, B.I (iKON) entre outros, todos vieram do K-pop e rompem paradigmas da produção musical, atuação e composição. 

Bobby (iKON), venceu a terceira temporada do Show me the money, enquanto Mino (Winner) conquistou o segundo lugar na quarta temporada. B.I também participou da terceira temporada, chegando ao top8. Os três são internacionalmente conhecidos por seus raps.

Por que isso acontece?

Existem muitas razões pelas quais o k-pop ainda é invalidado, mas algumas delas ainda são o público majoritariamente feminino ou LGBTQIA+, as grandes fanbases vistas como histéricas e usualmente cedem e passam a corresponder a essas expectativas. Esse debate da misoginia e patriarcado e seus impactos na música também é inesgotável e relevante, ainda mais com o crescimento do movimento ‘pick me girl’ em plataformas como o tiktok. 

 

Legenda: Nas últimas semanas diversos vídeos bombaram no TikTok tirando sarro de meninas com comportamento ‘alternativo’ ou tipicamente diferentes, conhecidas como pick me girls (nesse sentido, seria uma menina em busca atenção, tendo gostos pessoais peculiares). Nesse contexto surge o debate acerca da misoginia presente nesses conceitos e na questão do ‘não ser como as outras meninas’ e como a sociedade tende a invalidar interesses femininos desde a infância, exaltando comportamentos de imagem forte/masculina. No fim do dia, meninas jovens não são liberadas a ter hobbies, pois estes sempre viram alvos de piadas e acumulam milhares de haters na internet. O comportamento histérico de fanbase foi associado ao público feminino/LGBT de maneira infundada. 

Por fim, a razão que fala mais alto é a falta de autonomia da indústria, além dos problemas internos e sistemáticos. 

É importante entender que uma boa parte dos grupos idols recebe sua música já pronta e mastigada pela empresa, que por sua vez investiu muito tempo terceirizando a identidade artística daquele elemento, já que os mesmos ainda precisam ensaiar e entender mais sobre a entrega nos palcos – coisas que já não são trabalhos simples, ainda mais em uma apresentação milimetricamente calculada – mas isso não quer dizer que não haja entre os ídolos um grande músico, um grande produtor e por aí vai. Talvez o estilo de certo idol não seja o que a agência procura lançar, ou talvez a música ainda precise amadurecer, talvez até mesmo esteja no contrato que a música venha pronta, existem diversas possibilidades, e obviamente isso não seria desculpa para invalidar o trabalho de alguém.

Lembrando que, receber a música pronta não é algo exclusivo da indústria do K-pop, mas sim da música pop no geral. É esquisito ver alguém dizendo que o K-pop é calculado e plástico, quando existem muitos pop stars que sequer conceberam a ideia de produzir uma música do zero, e também não existe problema nisso. Cantor, letrista e produtor são três profissões diferentes. Claro que é admirável quando é possível o idol escrever, produzir e performar a própria música e muitos idols têm trabalhos interessantíssimos nessa linha, mas não obrigatório. 

A performance, carisma de palco e coreografia também demarcam as habilidades de um artista, não devia haver separação entre artistas e idols. Idols são artistas. Alguns podem não lhe agradar, isso não os faz menos artistas. 

Voltando ao próprio Street Woman Fighter, na Coreia, começou a surgir uma grande quantidade de comentários exigindo por fancams dos back dancers mais populares, como Ellen e Noze, afirmando que são ‘melhores que os idols’ e que após assistirem o programa passaram a menosprezar o estilo de dança dos idols. É um tipo de comentário criticado pelo próprio público coreano, mas não podemos deixar de citar como os idols são “mal vistos” independente de seus esforços ou função.

Obviamente, é injusto comparar um dançarino profissional com uma garota de 16 anos que estreou recentemente; até mesmo com um idol experiente de 26 anos. São áreas distintas e processos de treinamento diferentes, contudo, os grupos idols ainda são aqueles quem estão debaixo de lentes de aumento constantemente.

Quais são as consequências? 

É pertinente dizer que existem várias evidências de que comentários online, cyberbullying e humilhação pública afetam artistas por todo mundo, causando problemas como ansiedade, síndrome do pânico, entre outros. Para além desses problemas internos e pessoais, a perda do entusiasmo e da paixão pela performance e pelo trabalho pode ser o fim mais trágico para um artista. 

Em 2020, BTS lança ‘Blackswan’, uma música sobre a perda da paixão, de maneira geral. Conversando diretamente com os artistas, a letra fala logo no início “Meu coração não corre mais, ao ouvir a música tocar/ Parece que o tempo parou, essa vai ser minha morte” – Simbolizando a frase exposta na primeira tela de seu Art Film, que diz ‘Um dançarino morre duas vezes  – a primeira vez quando para de dançar, e essa é a morte mais dolorosa’. 

Sendo assim, a mais dolorosa morte para um artista é quando sua arte deixa de fazer sentido, ou quando não há mais entusiasmo para produzi-la. Microagressões também provocam tais incertezas e angústias. Também não é raro fãs se mobilizarem em redes sociais dizendo que idol x ou y ‘perdeu seu brilho de anos atrás’ ou ‘parece exausto, parece não querer estar ali’. 

Conclusão 

É importante que valorizemos a música e a arte de maneira mais honesta. Existem canções que não se pode avaliar de forma técnica, e existem outras onde a competência do produtor brilha; o mesmo vale para as performances. Na fanbase, também é necessário trabalhar em cima do estigma que segrega idols de kpop dos ‘artistas de verdade’. Internacionalmente, apesar da credibilidade e espaço que conquistamos nos últimos anos, ainda é difícil subverter a imagem que o pop coreano ou do leste da Ásia passa, mas acima de tudo é importante entender que nem só de cor vive a música pop e, não existe algo como um artista sério e um idol antiprofissional. 

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elle
Esquisita na maior parte do tempo, apaixonada por procurar significado onde ninguém mais vê. As vezes milito as vezes me estresso. Dá pra encher uma piscina os meus pensamentos.

3 Comentários

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