Cultura de Cancelamento e Hipocrisia Social

Indo em direção ao fim de mais um Setembro Amarelo, é impossível não refletir sobre os gigantescos traços de hipocrisia digital pelos quais passamos diariamente, na fanbase do k-pop não poderia ser diferente. Pessoas de diferentes idades, vivências e culturas semeiam o interesse pela música pop coreana e, a partir daí se entregam a um novo modo de se relacionar socialmente online (fan accounts, fandons, chats em grupo, etc). A partir daí, já é possível dizer que turbulências acontecem, pessoas erram o tempo todo e somos todos cabíveis de erros, grandes ou mínimos. Surgiu nos últimos anos algo que chamamos de “Cultura de Cancelamento”, que consiste, basicamente em julgar e crucificar pessoas públicas ou simplesmente fãs, com base em seus “erros”, sem espaço para que esta se explique ou defenda, gerando uma onda de comentários de ódio e dando espaço para algo que a sociedade à passos de tartaruga tenta desconstruir: o bullying e, neste caso cyberbullying e os massacres de ofensas online.

Em um mês de incentivo à campanhas anti-depressão e anti-suicidas, com o intuito de oferecer apoio às pessoas, é indispensável questionar porque sempre nos deparamos com grandes segmentos de postagem “expondo fulano” e, em seguida o mesmo recebe ofensas gratuitas e se afasta das mídias sociais, sem passar por nenhum processo de educação. Onde cabe a empatia que propõe setembro em atitudes como está? Até que ponto a vida de outra pessoa te afeta? 

Quando pensamos em situações que geralmente são condenáveis aos cancelamentos, imediatamente nos vêm a mente casos de comentários ofensivos de cunho racista ou misógino, ou até mesmo algo que tenha soado egoísta ou presunçoso por parte de algum idol, apresentador ou ator.

É necessário fazer análises muito profundas para classificar até que ponto determinado ato merece retaliações ao invés de simplesmente uma boa aula de sociologia. Eu particularmente me choco com a quantidade de vezes em que ídolos foram cancelados por seus dizeres ao invés de seus fandons assumirem uma postura de oposição e procurassem meios de educar seu artista e, cobrar um pedido de desculpas. Afinal, o que o seu oppa fez? Ele comprou um baseado? Ou ele vendeu mulheres à práticas sexuais como se fossem um cardápio de junk food? (Ambos são crimes, o primeiro apenas não deveria ser) 
Obviamente, na maioria das vezes estas situações esbarram em outro fator: a repressão por parte das agências. É impossível dizer se algum artista foi ou não pressionado por sua empresa a pedir perdão aos fãs e ao público, assim como é impossível dizer se este mesmo não foi obrigado a se calar e nunca mais citar o ocorrido. Para todo e qualquer caso, o mais coerente seria observar a postura do artista pós incidente, se é possível perceber a mudança, se aconteceu ou não novamente e até mesmo se o mesmo procura se redimir sobre suas antigas ações. 

O líder do grupo “Stray Kids”, Bang Chan, sofreu diversos ataques no último mês de maio, após acusações de racismo e apropriação cultural. Chan já havia anteriormente apresentado postura de apoio á casos de depressão e ansiedade dentro de seu fandom “Stay”.

Outro ponto discutível da cultura de cancelamentos é a seletividade e desigualdades que são facilmente aplicáveis entre fanbases. Não é preciso ir tão longe para encontrar reações desiguais para o mesmo tipo de comportamento, tampouco é preciso voltar muito no tempo para entender o quão esquecidos foram alguns escândalos imensos e graves. Claro que as retaliações chegam brandamente para artistas de fama estabilizada e grandes fandons, principalmente se esse artista for masculino.

A desigualdade de gênero neste caso é escancarada. Mulheres na indústria são cinco vezes mais cobradas sobre seus comportamentos e falas. Grupos masculinos nunca foram hateados como os femininos portando o exato mesmo discurso e isto é gritante. É este tipo de separação que torna a sobrevivência de artistas femininas neste ramo facilmente desmontável e constantemente ameaçada.

O boygroup iKON, já sofria com a ‘Cultura de Cancelamento’ desde antes de sua estréia, em 2015. Entre altos e baixos, o grupo provavelmente passa por seu pior momento em 2019.

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AUTOR gabbie